
“Mostra o seu rosto? Queria tanto saber quem é você...” – e assim começam minhas leituras de mensagens diretas via Twitter praticamente todos os dias das minhas já mais de 15 semanas ativas como LGND. A curiosidade soa, para mim, como um instinto normal de quem quer desesperadamente dar forma a alguém que já é companhia de mais de 13 mil pessoas mundialmente sem mostrar o rosto uma vez sequer. Inicialmente, a resposta enviada aos curiosos de plantão era sempre entregue com o mesmo carinho de quem envia um presente receoso com a reação do destinatário: apreensivo, preocupava-me com o excesso de confiança que as mensagens me depositavam e, buscando compreensão, terminava sempre frustrado ao perceber que a compreensão que eu tinha para com quem me questionava não retornava da mesma forma para mim.
O motivo inicial
pelo qual não mostraria meu rosto no Legenda
Colorida ainda permanece sendo um dos principais: minha profissão. Sou
professor há quase 6 anos e lido diariamente com a confiança
depositada em mim por pais e alunos que esperam que eu seja liberal, porém
casto; divertido, mas não muito; aberto a conversas, mas hétero. Não me
preocupa o fato de que meus superiores na escola saibam de minha sexualidade –
muito provavelmente já sabem, ou pelo menos desconfiam. A questão é que não
posso correr o risco de que algum pai, mãe, aluno ou até mesmo meus
coordenadores descubram que um de seus professores possui um perfil de conteúdo
quase que integralmente pornográfico e, “pior”, homossexual. Isso, obviamente,
não afeta em absolutamente nada minha capacidade intelectual e minhas
habilidades como educador, mas tenho consciência de que o mundo (infelizmente)
não funciona tão abertamente como deveria e que, sim, prezar por meu emprego e
minha imagem não é egoísmo com quem me segue, e sim respeito comigo mesmo e por
minhas escolhas.
Tempo depois,
porém, comecei a analisar minha escolha de permanecer anônimo com outros olhos
e decidi incorpora-la no conceito do perfil que, sim, só é, sempre foi e sempre
será controlado somente por mim. O Legenda é algo muito pessoal onde expresso meus sentimentos e
opiniões, e ter mais de uma pessoa no comando diminuiria seu caráter íntimo e o
tornaria algo comum – e algo comum é o que eu definitivamente nunca quis ao
criar o perfil. Logo, por me sentir a cada dia mais tão íntimo e próximo de mim
mesmo e de outras pessoas, percebi que minha escolha (que inicialmente só
possuía relação com meu emprego) passou a interligar-se com o significado real
e psicológico de identificação.
Um seguidor
chamado Gustavo Borges, membro de um grupo LGBT, me informou que ocorreu em
Minas Gerais um debate sobre as questões envolvendo os gays. Ao citar o Legenda
Colorida, ele me disse que, dentre mais de 150 pessoas, pelo menos 20 conheciam
o perfil – o que me deixa muito
satisfeito, já que começo a ver resultados daquilo que me propus a fazer:
trazer um pouco de liberdade de expressão, entretenimento e voz para quem não a
tem. Fico imensamente feliz quando me dizem que o Legenda Colorida faz parte da
rotina de muita gente e que o perfil transcendeu a categoria de “perfil de
pornografia” para a seção “amizade virtual” e posso garantir a todos que o
sentimento de carinho é recíproco – basta ver a maneira que trato a todos no
perfil, já que educação e respeito são características obrigatórias, mas
carinho nem sempre é visto na maioria dos perfis do segmento pornográfico.
Por conta de
tamanha proximidade virtual, acabaram me transformando numa espécie de “guru do
sexo” e virei sinônimo de animação e alegria, já que praticamente todos os meus
tweets são de teor cômico/pornográfico.
Fico grato pela prospecção, mas, como já disse no perfil, sou muito mais caseiro
do que imaginam, minha vida sexual não é tão agitada quanto pensam e, sim,
também tenho dúvidas sobre sexo – não se esqueçam de que tenho 22 anos e ainda
há muito o que viver e aprender.
Tendo isso dito,
há ainda muito mais o que mostrar no Legenda Colorida. Ao expor as confissões
mais sórdidas da grande maioria dos seguidores, as selfies ousadas que mostram tudo (e mais um pouco) e as indicações
de fotos e vídeos que são feitas, sinto que já conquistei a confiança e o
carinho de quase 14 mil pessoas que, diante de tantas injustiças, julgamentos e
palavras de humilhação que ouvem todos os dias simplesmente por serem “coloridas”,
sentem-se à vontade ao se abrirem com alguém que, sem poder se identificar,
acabou gerando identificação. Sou loiro, sou moreno, sou branco, sou negro, sou
gordo, sou magro, alto, baixo, musculoso, magrelo: sou como vocês preferirem
imaginar. Mas, acima de tudo, sou liberdade. Bem-vindos sempre!

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